XX XY
De que maneira a simples dicotomia histórica “homem e mulher” esconde uma rede complexa de relações sociais?
por: Maurício Amendola e Virgginia Laborão

“Eu não acho que exista um padrão de homem e mulher, ainda mais nos dias de hoje, mas acredito que existem funcionamentos masculinos e funcionamentos femininos”, afirma o psiquiatra e coordenador do Ambulatório de Transtornos de Identidade de Gênero e Orientação Sexual do Hospital das Clínicas (HC) da Universidade de São Paulo (USP), Alexandre Saadeh.

O mestre em ciências sociais e professor da PUC-Campinas Tiago Duque revela que a transexualidade é um fenômeno que evidencia como as normas de gênero impactam sobre todos os indivíduos no que diz respeito aos papéis de gênero, isto é, o modo que cada indivíduo deve agir em determinadas situações conforme o gênero ao qual lhe é atribuído. Segundo ele, a performance de gênero como masculino ou feminino está imposta para todos pela cultura, por meio de máximas clássicas como “meninas brincam de boneca” e “meninos são mais fortes”.

As normas de gênero que separam homens e mulheres estão intrinsecamente ligadas às relações sociais de poder, de acordo com o doutor em ciências sociais e professor da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) Jorge Leite Júnior. "Existe um pânico da nossa cultura em criar direitos de igualdade entre homens e mulheres. E pra isso, a gente apela para Deus e a biologia. E para que tanto medo? O que a gente perde com isso?", questiona.

Ele afirma que a partir do momento em que não se conseguiu mais separar homens e mulheres por meio do exterior, ou seja, pelas roupas, adereços e até mesmo trejeitos e atitudes, a saída encontrada foi a diferenciação de maneira biológica e essencialista. "A gente procura no cérebro a diferença. Isso é generificar o próprio cérebro. Descartes [filósofo tido como pai do racionalismo moderno] cairia duro porque pra ele não importa a questão do corpo ou da espiritualidade. Os dois, homens e mulheres, tem a mesma capacidade de razão", explica Leite Júnior.

A essencialização dos indivíduos é questionada pela filósofa Marcia Tiburi ao citar Judith Butler, também filósofa com estudos centrados no feminismo e na teoria queer que preconizam a generificação dos corpos através de construtos sociais. A concepção sustentada na ideia de uma essência ecoa constantemente na vivência dos seres humanos, e para a filósofa, um dos exemplos claros disso são os mitos que envolvem aquilo que é dito como o feminino.

“A crítica mais perversa que existe para a as mulheres na nossa cultura é exigir que as mulheres sejam femininas, a gente vê muito isso, um elogio da mulher feminina, da mulher sensual”. Além disso, ela afirma que as mulheres que consideram a sensualidade ligada ao feminino uma coisa positiva, não percebem como são vítimas de uma construção de identidade baseada na ideia de essência, e assim, não constatam os jogos de poder que mantém essa construção cultural.

Para Marcia, todos os filósofos do século XX criticaram a ideia da naturalidade, de que as formas de pensamento, de convivência e de sociabilidade são naturais aos indivíduos: “Sabe a ideologia da ‘vida como ela é?’ Não existe isso, essa vida substancial. O que existe são as nossas construções, nós poderíamos ter construído de uma outra forma, nós podemos construir de outra forma”, afirma de maneira contundente.

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