XX XY
De que maneira a dualidade de gênero (não) contempla as diferentes identidades existentes?
por: Virgginia Laborão

Ao deslizar o aparelho de ultrassom pela barriga da mãe, o médico já sentencia “É menina” ou “É menino”. Na nossa sociedade, ao dizer o sexo biológico do bebê antes mesmo do nascimento, neste momento já lhe é imputado também um gênero. “Já rotulam a pessoa e esperam pra ela toda uma vida em cima de um papel reprodutivo”, reflete a filósofa e designer de jogos Leila Dumaresq.

Como aponta o doutor em ciências sociais e professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) Jorge Leite Júnior, a nossa cultura parte do princípio do binarismo de gênero, isto é, da dualidade fixa para dividir os indivíduos entre pessoas dos sexos feminino e masculino. Tal conceito propõe ainda uma relação direta entre as categorias de sexo biológico e de gênero.

No entanto, a identidade de gênero pode ou não coincidir com o que é designado ao nascimento. Como aponta a psicóloga Bárbara Dalcanale Menezes, do Centro de Referência LGBT de Campinas, inúmeras identidades de gênero fogem das duas categorias, sendo as mais recorrentes transexuais, travestis e transgêneros.

Alertando para o perigo de colocar os indivíduos em “caixinhas”, a psicóloga e coordenadora do Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais do governo do Estado de São Paulo, Judit Lea Busanello, explica que, de modo geral, transexuais são aqueles indivíduos que se identificam com o gênero diferente ao designado no nascimento e tem um profundo desconforto com o corpo e o órgão genital, buscando na maioria dos casos a cirurgia de redesignação sexual.

Já travestis se identificam com o gênero diferente, mas não costumam sentir esse desconforto com o órgão genital, buscando normalmente modificações corporais de caracteres secundários. A psicóloga Bárbara também afirma que algumas travestis se autodenominam como um “terceiro gênero”. O conceito de transgênero funcionaria como a denominação que abarca todas as identidades que transitam entre o masculino e feminino ou aqueles indivíduos que não se atribuem a nenhum dos gêneros.

Judit ressalta que tais conceitos também podem não abarcar as especificidades das experiências de cada pessoa ao que diz respeito à identidade de gênero ao qual a pessoa se autodenomina. Os exemplos revelados por ela são pessoas que se identificam como travestis, mas que gostariam de realizar a cirurgia ou pessoas que se denominam como transexuais e, contudo, não gostariam de passar pelo procedimento cirúrgico.

O mestre em ciências sociais e professor da PUC-Campinas Tiago Duque argumenta que a conceituação dessas identidades permanece em intensa disputa de poder nas relações sociais, sendo tênue a linha que as separam. "Existem trânsitos identitários e classificatórios, então não dá pra demarcar exatamente o que é uma coisa e o que é outra. Mas quando existem essas diferenças, elas são todas relacionais com a intenção de que se quer definir, porque se quer definir, e com as histórias de vida, que envolvem as experiências com os outros, com o discurso médico, com o desejo, com o próprio corpo", reflete Duque.

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