Sob o Véu
O que permanece debaixo do véu e da grinalda da heteronormatividade nas relações sociais, de gênero e da própria sexualidade humana?
por: Virgginia Laborão

“Eu sofro preconceito duas vezes”, desabafa a artesã Esther Pereira. Ela é transexual e lésbica o que, segundo ela, não é compreendido facilmente pela maioria das pessoas. "As pessoas não conseguem entender que alguém que se diga trans queira fazer todo aquele tratamento hormonal, fazer cirurgia, readequar o órgão sexual pra depois ficar com outra mulher", conta ela.

Por vezes confundidas, a identidade de gênero e a orientação sexual na realidade tratam-se de dimensões distintas, como aponta a psicóloga do Centro de Referência (CR) LGBT de Campinas, Bárbara Dalcanale Menezes. "As coisas se mesclam. Uma mulher transexual se identifica com o gênero feminino, mas nasceu no corpo biológico masculino. Essa pessoa pode ter uma orientação sexual hetero, homo ou bissexual", explica a psicóloga.

Enquanto a identidade de gênero permanece no âmbito da autoidentificação em relação a um gênero – que no caso dos transgêneros não concorda com o designado no nascimento –, a orientação sexual diz respeito à atração afetivossexual. O desejo sexual é designado como heterossexual em pessoas que se atraem por indivíduos de um gênero diferente. Já no caso dos homossexuais, a atração é por pessoas do mesmo gênero. Por fim, a bissexualidade se refere à atração por pessoas de qualquer gênero.

Muito embora a homossexualidade tenha sido retirada da Classificação Internacional de Doenças (CID) em 1990, o cientista social e mestre pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Tiago Duque aponta que o fenômeno social da heterossexualidade compulsória ainda persiste em projetar as demais sexualidades como foras do natural do ser humano.

Ele afirma ainda que experiências como a de Esther colocam em xeque de forma contundente normas sociais binárias de gênero e sexualidade. "Isso é uma prova bastante completa de que o desejo não está no corpo, não é uma experiência fisiológica. Ela passa pelo corpo, mas não é determinada pelo corpo. Senão, isso estaria resolvido com a cirurgia e não está", pontua.

O sociólogo afirma, no entanto, que mais potente do que a heterossexualidade compulsória, a heteronormatividade exerce uma poderosa pressão sobre todos os indivíduos da sociedade. "É dizer nós respeitamos a diferença, mas não abrimos mãos da heteronormatividade. Podem até ser homossexuais, mas devem casar, em um casamento monogâmico, respeitável e que garanta a possibilidade de adoção", explica.

Para a filósofa e designer de jogos Leila Dumaresq, a heteronormatividade se reflete na categoria biológica da função reprodutiva das pessoas, que é colocada em suspensão nos transexuais por conta da incongruência entre gênero e sexo biológico. Mas segundo ela, todos os indivíduos, sejam eles transgêneros ou cisgêneros, isto é, aquelas pessoas em que o gênero ao qual se identificam e aquele designado no nascimento são correspondentes, são enquadrados nos papéis reprodutivos. “Se qualquer pessoa quiser sair um pouco, por exemplo, o casal cisgênero que não quer ter filhos. O pessoal já cai matando. Todo mundo fala: meu Deus, que absurdo, como não querem ter filhos?"

A filósofa Marcia Tiburi explica que categorias sociais tais como os transexuais, homossexuais e até mesmo as mulheres, são heteroconstruídas, isto é, formuladas sob uma perspectiva de contraidentidade do macho heterossexual. Ela cita a obra “História da Sexualidade”, de Michel Foucault, para refletir sobre a construção social não apenas do gênero, mas também do sexo. "A sexualidade foi um dispositivo e uma armadilha. As pessoas ficaram acreditando que tinham que descobrir isso e essa crença foi manipulada pelas instituições, família, Estado, Igreja e é muito manipulada ainda pela pornografia e pela publicidade".

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