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Régis
Vascon
Por Maurício Amendola

Dono de fala serena e convicta, Régis Vascon sabe usar a cara e a coragem – como o próprio classificou com orgulho as soluções encontradas por ele para as intempéries da vida – sem quaisquer vestígios de automisericórdia. Régis conhece muito bem o chão que pisa e mais fundamental que isso: sabe o chão que deseja pisar. Familiarizado com os atalhos do caminho, sabe o tamanho dos muros e desconfia da altura deles. O assessor jurídico de 41 anos do Centro de Referência LGBTT de Campinas é um obstinado militante, embora, para ele, ser transexual em meio à violência moral do cotidiano já é ser militante quase instintivamente. “Eu não preciso de uma bandeira porque eu sou uma bandeira”.

Régis, com predileção para o mundo das leis desde os 15 anos, trabalha na causa de pessoas que anseiam pelo mesmo horizonte que ele: ter o direito de ser quem são e se sentem. E será que existe alguém que não queira isso? Essa obviedade de custosa compreensão aos olhos dos alicerces de nossa sociedade impulsionou a carreira do campineiro de sorriso fácil e sotaque característico. O caminho é duro e Regis reconhece que o direito é aliado e inimigo simultaneamente. “O direito é uma ciência linda, mas ele tem sido usado por pessoas preconceituosas e retrógradas, para não dizer fascistas”, diz com a firmeza de quem foi expulso de casa na adolescência, trabalhou em subempregos, foi guarda municipal por 13 anos e acredita que em toda subversão há um tanto de vanguarda.

A persistência na vida profissional – embaralhada irresistivelmente à pessoal – foi a maneira fortuita, porém incisiva de Régis gritar ao mundo: eu tenho o direito de ser feliz. E é feliz e emocionado que ele conta de Kátia, sua esposa e munição espiritual para os momentos de tormenta: “a gente já passou por tanta coisa junto, já venceu cada obstáculo...” fala entre pausas, respiros e sorrisos. Os obstáculos, que Régis compara aos sofridos pelos negros (“parece que foi como os negros depois da abolição da escravatura, parece que por ser trans a gente tem que trabalhar o dobro para se superar aos olhos da sociedade”) demonstram que o caráter de advogado e cidadão foi formado sob a luz de uma famosa frase de Martin Luther King, outro incansável defensor da liberdade: A injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça em todo lugar. Régis é mais um “brigador” pelo mundo que transmite o indispensável aviso de que a felicidade é de domínio e prescrição intransferíveis.