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Phedra
de Córdoba
Por Ana Carolina Mora

Tirésias, na mitologia grega, foi um glorioso profeta cego de Tebas e, no espetáculo Édipo na Praça, da Cia Os Satyros, quem o interpreta é Phedra de Córdoba. Aos moldes da mitologia, filho de uma ninfa, Tirésias foi escolhido por Zeus e Hera para que pudesse retratar qual dos dois corpos, o masculino ou feminino, sentia mais prazer sexual e, por isso, revezou entre os corpos de um homem e de uma mulher. Foi Tirésias, também, que revelou a Édipo que o próprio havia matado o pai e casado com a mãe, Jocasta.

Phedra, que já esteve no corpo de Felipe Rodolfo Acebal, é uma atriz renomada e chegou de Havana, Cuba, há mais de 50 anos. Seu primeiro trabalho no teatro foi como corista. Corpo de homem e voz de mulher é como se sentia aos 15 anos. No ano seguinte, antes de Fidel assumir o poder, fugiu de Cuba e, depois de passar por 16 países, aportou no Rio de Janeiro em 1958 a convite de Walter Pinto para encenar Teatro de Revista. Atualmente brilha nos palcos do teatro da Praça Roosevelt, em São Paulo.

Dona de cabelos amendoados, prefere usar peruca e possui uma coleção com dezenas de modelos, de pretos, ruivos, cacheados até os cortes mais modernos, e as usa para se sentir mais glamorosa. O mesmo glamour percorre cada curva de seu corpo até chegar aos longos dedos das mãos rodeados de anéis e com unhas perfeitamente pintadas de vermelho. Gesticulando a todo o momento e abrindo largos sorrisos, relembra contrariada, em seu portunhol inconfundível, a forma como a mãe a via e o carinho do pai, que sabia que ela não tinha nascido para ser homem.

Em 1972, tornou-se ícone da noite paulistana e, em tempos de ferrenha ditadura, se camuflava como espanhola para não ser perseguida pelos militares. Como num filme de Pedro Almodóvar, a vida e a personalidade de Phedra montam um enredo digno de cinema e revelam o lado escuro e ao mesmo tempo doce da atriz. Como ela mesma diz “Deus disse: minha filha, você nasceu pra ser mulher, nasceu com esse babado aí em milagre”. Hoje ela vive em seu apartamento no centro de São Paulo com Primo Bianco, um gato branco e peludo.