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Michele
dos Santos
Por Marina De Sordi

Os moradores do Centro de Campinas provavelmente já a viram nas tardes da praça Largo do Pará: recém saída da academia, com roupa de ginástica e óculos escuros, ela passeia com o seu cachorro, sem chamar atenção na multidão. E possivelmente esses mesmos moradores podem já terem-na visto a noite, em esquinas próximas dali, de roupa curta e maquiagem carregada, oferecendo seus serviços como profissional do sexo. A moça com o cachorrinho e a travesti são Michele dos Santos, alguém que encontrou na prostituição uma maneira de ganhar a vida atuando como a mulher que sempre se sentiu.

Nascida em uma pequena cidade de Minas Gerais, em uma família de origem rural, com dez filhos, Michele sempre acreditou ser uma menina. Vestia-se e se comportava como tal, recebendo o apoio da mãe, que afinal sempre quis ter uma filha. O início da adolescência que lhe trouxe as más notícias: um corpo de menino que ela não podia entender ou aceitar. Aos 15 anos, depois de ser espancada pelo pai – um entre muitos que confundem identidade de gênero com orientação sexual – que não se permitiria ter um filho gay, ela fugiu de casa.

Com cabelos morenos e corpo de curvas acentuadas, Michele, de 31 anos, se autodenomina travesti, único termo que ela sempre conheceu para definir a sua transição entre gêneros e afirma que seu comportamento e psicológico são femininos. “Eu me considero uma mulher diferente”, explica. Segundo ela, ser uma mulher que possui um pênis é um bônus na sua profissão, pois “todos os homens sentem prazer na região anal, mas têm vergonha de pedir para a esposa satisfazer este desejo”. Como os clientes não se consideram homossexuais, eles não contratam garotos de programa, mas buscam alguém como Michele, com corpo e comportamento femininos. Cerca de 90% dos clientes dela preferem ser passivos, isto é, serem penetrados.

Com a prostituição, Michele construiu patrimônio pessoal e ganhou independência do mundo familiar que não a aceitava como mulher. Seu irmão chegou a tentar matá-la e a impedia de se aproximar dos próprios pais. Foi com o trabalho que Michele conseguiu comprar um apartamento de dois quartos no Centro da cidade, que divide com outra colega de profissão, e ainda presenteou os pais com uma casa, uma forma de ajudá-los e aproximar-se deles ao tirá-los da casa mantida pelo irmão. Morou na Europa por 2 anos e 7 meses, e chegou a receber 10 mil por mês. Atualmente, afirma que trabalha o suficiente apenas para pagar as contas. A prostituição trouxe-lhe também um lado difícil, que envolveu dependência em drogas, discriminação e violência física. Hoje, ela pensa em um dia se aposentar. “Meu sonho é construir um restaurante, ter um marido e filhos. Viver feliz para sempre”.