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Leila
Dumaresq
Por Virgginia Laborão

A voz serena que emerge da silhueta de 1,90 metro alongada ainda mais pelas saias compridas não se torna empecilho algum para a filósofa e designer de jogos Leila Dumaresq brigar por meio do discurso bem articulado pelos seus direitos todos os dias. Briga que resolveu comprar depois de 30 anos existindo apenas para os outros e vivendo de mentira, como ela mesma diz. “É uma luta para todas, eu escapei esse tempo todo me escondendo”, relembra arqueando as sobrancelhas grossas e bem delineadas.

As violências morais como ser tratada pelo gênero no qual ela não se identifica não é novidade alguma na vida da transexual de 35 anos – o que não minimiza em nada a dor do preconceito que pode vir a qualquer momento. Leila cansou de procurar sinais por entre a miríade de olhares lançados a ela. O preconceito pode vir de qualquer pessoa em qualquer lugar.

Durante uma investigação logo na primeira infância, percebeu que por certo deveria ser uma menina e não um garoto. Mas continuou trilhando seu caminho, concluiu os estudos e graduou-se em filosofia. Vislumbrava os reconhecimentos dos trabalhos e artigos concluídos, mas sentia como se todas as glórias pertencessem a outrem.
Até que percebeu que não conseguiria mais viver sem se colocar na sociedade como realmente se reconhecia. “Eu percebi que ia viver cada vez mais miserável, sem realização. Nós não vivemos enquanto não nos assumimos”, diz meneando a cabeça compassadamente, mãos tranquilas sobre o colo.

A fala engajada de Leila remonta não só a sua própria formação acadêmica, mas também à própria ânsia de compreender o que se passa com ela, com os demais transgêneros e com a sociedade. Leila se afirma mais como ativista do que militante, sem se filiar a movimentos sociais organizados. Uma carta selvagem, uma loba solitária que luta para que sua autonomia seja reconhecida para além das barreiras impostas pelo código F.64.

Em meio às intempéries, Leila se diz orgulhosa por continuar tentando ser feliz. O seu riso revela que abriria mão de tudo de novo, quantas vezes fosse necessário, para ser Leila e só Leila.