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Juliano
Maziero
Por Virgginia Laborão

As chamas em azul, vermelho e amarelo irrompem do punho direito do agente penitenciário Juliano Maziero. Na pele que ainda cicatrizante, ele grafou o movimento flamejante da própria vida, nunca acabada e permeada de lacunas. “Isso também passará”, consola a frase em hebraico, outra dentre tantas que cobrem o corpo do transexual e relembram fases de superação. Alguns traçados, ele mesmo fez na própria carne, outros o destino tratou de fazer.

Aos 39 anos, ele se diz passando por uma segunda adolescência. As espinhas emergem na barba por fazer e a voz serena contrastante com as tatuagens que cobrem seu corpo por vezes perde o tom. Os cabelos foram raspados, os pelos começaram a crescer e engrossar e até a percepção das sensações começaram a se transformar.

Com a perda da mãe, ele decidiu pegar a vida das mãos do destino. Chegou a injetar por conta própria a primeira ampola de testosterona e teve medo de morrer, mas o que sentiu dias depois foi apenas um raspar na garganta. Antes disso, Juliano costumava caminhar por entre os corredores de celas da Cadeia Feminina de Rio Claro, cidade em que mora atualmente.

Com a readequação de gênero, pediu para se afastar do convívio e passou para o trabalho de vigilância da penitenciária. Surpreendeu-se com a reação positiva das reeducandas e dos outros funcionários, mesmo que surjam perguntas curiosas a todo instante. “Eu nunca tive aptidão pra me enquadrar em categorias, eu não consigo. Eu acho que a gente não tem um molde, o que vale é a seu acúmulo de experiências”.

Pela erupção dos hormônios da adolescência vivida em Casa Branca, cidade do interior de São Paulo, Juliano passou silencioso ao mundo, um ermitão em meio aos livros. A paixão pelos estudos fez com que se graduasse em história, mas nunca chegou a lecionar. Menino moleque, subia nas árvores com os primos. Da infância, relembra com entusiasmo do dia em que, vestindo calças, uma camiseta preta e de cabelos curtíssimos, recebeu a crisma do padre. “Foi uma audácia, senti que poderia ser um menino como qualquer outro”.