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Esther
Pereira
Por Gabriela Pincinato

Quase sempre de lenço na cabeça desnuda, a presença de Esther Pereira é marcante. Costuma estar sempre mais a vontade – de chinelo, saia ou calça leve e blusa que marcam os seios que cresceram naturalmente – não há implante de prótese de silicone ali. Impõe-se tanto pelo tamanho, quanto pela voz – e de acordo com ela, todos os Pereira’s da família são assim, de estirpe que não prima pela brandura. Nasceu em São Bernardo do Campo, em 1963 e hoje, aos 50 anos, é moradora de Campinas.

Uma mulher incomum aos padrões imperativos femininos, a artesã não mede esforços para se pronunciar como lhe bem entende. “Eu aprendi a rosnar e latir e latir muito bem. Tem certos lugares que você precisa rosnar e latir mesmo”, diz, arcando as sobrancelhas e olhando por cima dos óculos retangulares. Desde que se assumiu transexual, há 10 anos, Esther viu barreiras crescendo sobre seus caminhos. Nessa época, trabalhava como cobradora de ônibus e para ser aceita usando um uniforme feminino foi uma grande batalha.

Até que um dia perdeu o emprego, já que os outros viram essas mudanças como uma incongruência inaceitável. Desde então, não conseguiu nenhum trabalho formal. Seu sustento vem de “bicos” e da fabricação de peças artesanais, que lhe rendem uma média de 20 reais por semana. Ser livre como mulher lhe custou caro. Hoje vive de favor em uma república de estudantes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com colegas que conheceu em ciclos de debates do movimento feminista – bandeira que também carrega.

Os olhos, às vezes distantes, anunciam anos doídos da vida. Desde a ruptura com os laços familiares até os relacionamentos que não deram certo, é possível perceber que Esther encontrou nos problemas uma fortaleza em si, que foi construída ao longo dos anos junto da mulher que tem se tornado. Transexual, lésbica e militante da causa LGBT, ela denuncia as falhas que vê dentro do próprio movimento. “A causa trans muitas vezes é esquecida ou até mesmo invisibilizada. Um exemplo são as estatísticas. Quando morrem travestis e transexuais, a estatística é de homofobia”.

Um dos caminhos para sua ascensão espiritual, ela encontrou na bruxaria Whicca. No cristianismo, cresceu e permaneceu até onde viu que não dava mais, já que os olhares dos cristãos lhe pareciam opressores demais para uma religião que pregava amor. Morrigan, a deusa da Guerra cultuada pelos seguidores da Whicca, faz transcender a identidade de Esther. A simbologia oculta diz sobre a força, a fé e a coragem. Elementos com os quais ela pretende lutar e quem sabe um dia conquistar seus espaços sociais.