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Erick
Barbi
Por Gabriela Pincinato

Em uma manhã de 1983, um menino de cabelos pretos, lisos e brilhantes que cobriam o rosto arredondado cor-de-leite, caminhava em direção ao banheiro dos meninos. Ele estava na escola, estudava no pré primário. A professora, como se fizesse a mesma coisa toda vez que ele ia ao banheiro, corria pelos corredores atrás da criança e dizia: “Você tem que ir no banheiro de menina, não de menino! Você é uma menina tão bonita!”. E ele não entendia o por quê.

A ingenuidade pueril o fazia acreditar que em algum momento seu pênis iria crescer. Era o que falava para os amigos do jardim da infância, que também concordavam, sem entenderem o que era aquilo pelo que o amigo passava. Em tentativas falhas, a mãe forçava-o a usar vestido; mas depois dos 4 anos de idade, nunca mais usou roupas femininas. Era inaceitável para ele, mesmo com sua pouca idade e pouco conhecimento, ser visto como uma menina.

Erick Barbi hoje tem 34 anos, é musico e compositor e vive em Campinas. A barba saliente cobre o queixo, a parte superior da boca e delineia as laterais de seu rosto arredondado, que é coberto por raros cabelos. Tem uma barriga pronunciada e quase sempre está de jeans e camiseta. Percebeu que havia algo de errado entre seu corpo e sua identidade de gênero logo aos 3 anos de idade - o que foi entender só aos 18. “A adolescência sempre é mais difícil... eu achava que eu era louco, porque as pessoas falavam que eu era algo que eu não sentia”.

Um dia, após assistir Meninos Não Choram (EUA – 1999, de Kimberly Peirce) - drama que conta a história de uma garota que decide assumir sua transexualidade e transforma-se num garoto -, Erick chorou por uma semana. “Eu tive uma catarse, um momento purgatório na minha vida”, conta. Foi quando compreendeu que realmente tinha nascido no “corpo errado”, como ele mesmo define.

Com apoio dos pais, fez hormonioterapia e realizou a retirada dos seios. Para ele, a assistência pública para a realização da cirurgia de readequação sexual é penosa e demorada - o que o impediu de fazer ainda. Apesar disso, com um sorriso largo afirma que se sente feliz com quem é hoje e realizado com sua vida pessoal. Erick está casado há cinco anos com Bárbara Menezes, psicóloga do Centro de Referência LGBT de Campinas e vive os versos da canção “Tudo o que o mundo vai me dar”, composta por ele sobre sua trajetória: “Agora eu vejo minha face do outro lado, estou certo de que sou assim, ser eu mesmo já não é nenhum pecado, o espelho já não vai rir de mim”.