Estigma
O que a passabilidade e o preconceito mostram sobre a imposição das normas sociais de gênero?
por: Maurício Amendola

“Eu sei que eu tenho que viver constantemente de espírito armado, constantemente pronta pra encarar alguma briga... socialmente falando, e no limite, até fisicamente” afirma Esther Pereira, que diz se sentir “invisibilizada”. Para o doutor em ciências sociais e professor da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) Jorge Leite Júnior são necessárias novas estratégias políticas para a inserção social dos transgêneros, já que, segundo ele, os avanços na luta política dos transexuais se devem quase que exclusivamente a batalha individual no cotidiano. “Se existe algum progresso na causa trans, se deve principalmente ao corpo a corpo, botar o rosto na rua e dizer: eu exijo meus direitos. Por enquanto, é impossível não associar o aumento de respeitabilidade e de direitos a não ser por essa luta diária”, afirma.

Num quadro de preconceito e marginalização, o termo “passabilidade” vem à tona como um aspecto fundamental para o entendimento da realidade dos transexuais no meio social. Para o mestre em ciências sociais e professor da PUC-Campinas Tiago Duque o “passar-se por” que circunda as experiências transexuais é sintomático de grupos sociais que sofreram tipos de coação ao longo da história: “O ‘passar-se por’ é anterior à experiência transgênera, por exemplo, em outros contextos, se buscou passar-se por ‘não judeu’ numa realidade extremamente antissemita”, afirma Duque.

Porém, para ele, a categoria do ‘passar-se por’, é deixada de lado em certas ocasiões, principalmente quando se insere numa situação de contestação. Para ele, em alguns grupos de movimento social, os travestis ou os transexuais acabam tendo uma postura mais marcante na discussão de um gênero mais fluído e contestador do padrão masculino e feminino, fazendo com que em alguns contextos se torne essencial “não passar-se por”.

Para a artesã Esther Pereira, que é militante do movimento LGBTT, as transexuais buscam essa passabilidade quase sempre levando em conta os padrões de beleza feminina, o que pode proporcionar outros tipos de consequência. “Quando a gente atinge um grau considerável de passabilidade, que é uma palavra que eu abomino, se insere no padrão de beleza imposto, e troca-se a transfobia pelo machismo, que é tão absurdo quanto”, afirma. Ela diz responder “Obrigada, seu desgraçado”, quando é reconhecida como mulher e ouve alguma piada machista.

O agente penitenciário Juliano Maziero acredita que o preconceito advém do medo da sociedade em relação a comportamentos novos e atitudes que não são entendidas em função da forma como a nossa cultura se construiu. “Os modelos antigos estão sempre sendo confrontados, nós somos a prova disso e daí surgem as resistências reacionárias”, disse.

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